Zezé Motta suplanta horror do racismo e da violência sexual através da palavra e da música que banham de ativismo e poesia o primeiro monólogo da artista
31/08/2025
(Foto: Reprodução) Zezé Motta está em cartaz com o monólogo ‘Vou fazer de mim um mundo’ no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro (RJ) até 5 de outubro
Reginaldo Costa Teixeira / Divulgação
♫ OPINIÃO SOBRE MONÓLOGO MUSICAL DE TEATRO
Título: Vou fazer de mim um mundo
Artista: Zezé Motta
Direção e dramaturgia: Elissandro de Aquino a partir de obra de Maya Angelou (1928 – 2014)
Cotação: ★ ★ ★ ★ ★
♬ Aliada à exuberância do cabelo afro, a beleza suntuosa do figurino branco criado por Margo Margot potencializa a imponência de Zezé Motta na cena ativista de Vou fazer de mim um mundo, primeiro monólogo dessa atriz e cantora fluminense de 81 anos. Após temporadas no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília (DF) e Belo Horizonte (MG), o espetáculo chegou ao CCBB do Rio de Janeiro (RJ), onde fica em cartaz até 5 de outubro.
No palco dividido com a percussionista Mila Moura e com o guitarrista Pedro Leal David (diretor musical e autor dos arranjos da peça), sob a direção de Elissandro de Aquino, Zezé intercala números musicais com a interpretação de trechos do livro Eu sei porque o pássaro canta na gaiola (1969), primeiro relato autobiográfico da obra da escritora, poeta e ativista norte-americana Maya Angelou (1928 – 2014).
A dramaturgia de Aquino parte da escrita de Angelou para abarcar sentimentos universais do povo negro, exaltado por Zezé Motta no militante instante final com a saudação nominal de personalidades como Abdias do Nascimento (1914 – 2011), Carolina Maria de Jesus (1914 – 1977), Clementina de Jesus (1981 – 1987), Elza Soares (1930 – 2022) e Preta Gil (1974 – 2025).
As palavras e as músicas banham de beleza e poesia o monólogo ativista. É com a poesia e com a música que a atriz e cantora suplanta o horror da violência sexual e do racismo encarados por Maya Angelou nos Estados Unidos dos anos 1930 e 1940, décadas de segregação racial.
Angelou foi estuprada aos oito anos pelo namorado da mãe. Não se calou de início, o que levou o estuprador ao tribunal para receber sentença que não cumpriu por ter sido assassinado antes de ir para a prisão. Contudo, o trauma levou Angelou a uma mudez somente vencida anos depois através do poder da leitura, sobretudo da poesia.
A bela cenografia de Claudio Partes evoca as plantações de algodão do sul dos Estados Unidos na época em que se passa o relato de Maya Angelou. Já a música, ouvida com a sonoridade apropriadamente rascante dos arranjos de Pedro Leal David, parte da diáspora africana que desbravou caminhos sonoros afins nos Estados Unidos e no Brasil.
“Nossa proposta foi deixar esses rios se encontrarem, trazendo o blues para o violão de nylon, como quem levasse Baden Powell para um passeio nas margens do Mississipi, ou como quem imaginasse os Tincoãs, numa manhã de domingo, com suas vozes e atabaques, num culto em uma igreja da Louisiana”, conceitua o diretor musical, cujos arranjos sublinham a tensão das músicas cantadas no momento em que Zezé denuncia os abusos sofridos por Maya Angelou.
Na prática, o roteiro musical parte de temas afro-brasileiros em saudação a orixás como Xangô, incursiona pelo blues e desagua no discurso ativista de A carne (Seu Jorge, Ulisses Cappelletti e Marcelo Yuka, 1998), música lançada pelo grupo Farofa Carioca que Elza Soares – personificação da mulher negra e dura na queda, tal como Maya Angelou – tomou para si com toda propriedade.
Antes de deixar ao palco ao som de Soluços (Jards Macalé, 1969), em dramático jogo de cena já recorrente nos shows da cantora mas inteiramente legítimo no contexto da peça, Zezé canta Magrelinha (1973) – com a experiência de quem sempre deu voz e vida aos versos escritos por Luiz Melodia (1951 – 2017) com poesia imagética – e, em momento surpreendente, interpreta Amor de índio (Beto Guedes e Ronaldo Bastos, 1978).
Cantado por Zezé em tempo de delicadeza, o sucesso de Beto Guedes derrama em cena a poesia e a humanidade que salvaram a vida de Maya Angelou em um mundo de abusos. Vida ativista que Zezé Motta saúda com a beleza e a música que regem Vou fazer de mim um mundo, espetáculo-manifesto do orgulho negro.